Uma atenção excepcional ao jornal e uma desatenção acerca da literatura econômica disfuncional do nosso país pode nos pregar peças importantes.
O jornal noticia o alvoroço no mercado de ações após o resultado do primeiro turno do embate presidencial.
“As bolsas dos bancos bateram recorde em meses, a cotação da Petrobrás… os investidores estão animados”
Essa atmosfera narrada com energia no jornal é compartilhada aos montes porque sempre que os jornais promovem a ideia de otimismo econômico de investidores, a impressão que se transmite é que o país tende a ganhar investimentos. Não está errado. “A taxa de juros ganha previsão de baixa” – soa contemplativo, soa ótimo.
Vamos pontuar 3 questões elementares aqui para deixar claro quem ganha e quem perde. No final nos deparamos com a retórica fantástica do “se você não sabe quem está sendo enganado, quer dizer que quem está sendo enganado é você”.
Ponto 1- Renda de capital: só ganha quem tem capital aplicado, é quando o dinheiro trabalha por você, ou seja, quando você não precisa trabalhar para auferir a renda que te sustenta. Há casos em que se pode naturalmente ter renda de capital e mesmo assim trabalhar ou ter outras rendas como aluguel para completar os vencimentos mensais, mas quando a matéria fala do mercado financeiro, ela não considera o baixo capital e sim os grandes capitalistas.
Na prática, para fixar: a Vale do Rio Doce foi criada em 1942 e foi privatizada em 1997. Em 2015 houve a tragédia de Brumadinho e em 2019 houve a tragédia de Mariana. O pano de fundo dessas duas tragédias foi o mesmo, a redução dos custos de manutenção e a corrupção para conseguir dos auditores a liberação de laudo para estruturas comprometidas. Com menos custos de manutenção, se potencializava os lucros e mais dividendos eram distribuídos para os acionistas (leia-se: ganho de capital).
O resultado foi 272 mortos em Brumadinho e 19 mortos em Mariana. Nenhum morto era grande capitalista que recebia os dividendos auferidos nas operações da Vale, além dos moradores locais, as vítimas da empresa foram trabalhadores que recebiam renda proveniente do trabalho assalariado.
Ou seja, há um público que ganha com a renda de capital e que fica em festa. O assalariado não faz parte desse grupo. Mas ainda há uma questão: por que o grupo capitalista ganha e por que o assalariado perde?
Ponto 2- O esquema privatista: Os sacrificados de Brumadinho e Mariana são os invisibilizados do mercado de capitais. O otimismo que fez as ações da Petrobrás terem uma das maiores altas entra nesse jogo, já que é um antigo sonho dos investidores privados repartir as ações dessa grande estrutura petrolífera nacional devido ao seu grande potencial e primazia no campo econômico.
Enquanto os países desenvolvidos têm suas grandes petroleiras como pilar estratégico de suas economias e de sua soberania nacional, como bem público, aqui os vilões querem repartir por meia dúzia para sua autopromoção financeira, sem se importar que isso enfraquecerá um setor fundamental da ainda pouco diversificada estrutura produtiva do país. A Petrobrás de hoje pode se tornar a Vale amanhã.
O funcionamento dessa estratégia nós já vimos no passado:
Passo 1- enfraquecem a empresa pública, como fez a malta liderada por Sergio Moro e Deltan Dallagnol, esfacelando a empresa por conta de uma problemática real ou imaginária tornada verdade mediante discurso incisivo e apoio da mídia cujos donos não são obviamente pessoas assalariadas.
Resultado: o valor da empresa cai. No caso da operação Lava-a-jato, ao invés de punir os envolvidos, os esforços se concentraram em prejudicar a empresa com a finalidade de que ela perdesse valor de mercado, com fins de favorecerem uma subsequente privatização.
Passo 2- privatizam para meia dúzia de megalomaníacos e esses vendem a parte mais custosa e de difícil administração para os interesses privados norte-americanos. Retomam o preço de paridade de importação nos combustíveis para potencializarem seus lucros.
Resultado: campo fértil para as empresas aliadas aos interesses estadunidenses entrarem no nosso mercado e competirem com os preços mais altos do que os que são praticados sem a paridade de preço internacional, que é uma manobra de equiparação de preços que não faz sentido porque não se trata de um produto importado, com custos de importação, nem tampouco um produto cujo único objetivo é o lucro expresso em moeda.
Como a logística, especialmente no Brasil, é dependente de transporte rodoviário, preços mais altos de combustíveis elevam o preço dos produtos e o poder de compra do baixo e médio trabalhador se reduz. Custos mais altos de combustíveis também voltam a selecionar quem pode ter carro, assim como reduzem acesso ao transporte aéreo, reduzem o acesso a aquisição de bens e serviços para as classes mais baixas, por isso também a importância de entender e ter consciência da classe da qual se faz parte, para não se autossabotar em momentos cruciais como o do voto. Em resumo, o que se compromete é a renda daqueles que vivem de renda de trabalho assalariado.
Ponto 3– a previsão de juros mais baixos: esse tema muda não somente a migração do investimento na divida pública, que se torna menos atrativa, para o ambiente dos investimentos mais voláteis, especulativos e manipuláveis, como vimos nos escândalos da JBS dos irmãos Batista, como vimos também na contabilidade criativa da Americanas, encabeçada por Sicupira, Telles e Lemann. Mas o problema da volatilidade só é realmente uma adversidade para quem não tem as informações privilegiadas dessas manipulações. Não é o caso dos especuladores e os grandes capitalistas que eles representam e pelos quais operam.
Vimos recentemente uma queda considerável no preço dos carros elétricos. A justificativa para os preços elevados que se praticava sempre foi a alta carga de impostos que incide sobre os veículos no Brasil, mas bastou a entrada de elétricos chineses para as montadoras baixarem os preços dos modelos que aqui se comercializava para não perderem sua mordida no mercado automotivo nacional.
Da mesma forma como isso ocorreu, com a taxa de juros mais baixa, isso reduz o chamado spread bancário, que é constituído pelos custos que um banco tem para emprestar dinheiro, somado seu lucro e uma variação à título de garantia e amortização de impacto diante do risco de inadimplência.
Na prática, o que tende a acontecer é o que já acontece quando há em um período a isenção de IPI para aquecer o mercado: o preço do veículo que deveria baixar 10, só baixa 7 e quando acaba a isenção, aumenta-se para 12 ao invés de voltar para 10, para novamente se argumentar que o aumento foi em decorrência do imposto, quando na verdade, foi o tamanho da margem de lucro que tomou espaço na brecha permitida por essa manobra do governo.
O que isso quer dizer é que o juros pode baixar os custos do banco, que pagará uma porcentagem menor de dinheiro ao banco central, mas a proporção dessa redução da Selic não será na proporção de sua efetiva redução pelo governo. Darão-se suas justificativas suficientes os bancos, os grandes capitalistas e as empresas que não tiverem o incômodo de concorrentes como passaram a ter as fabricantes de carros elétricos.
"Se você não sabe quem está sendo enganado, quer dizer que quem está sendo enganado é você" 🫵🏻.