Normas e antinormas do convívio social e suas instituições

Um casal sai. Quem deve pagar a conta?

Em uma pacata tarde em um escritório de contabilidade, um assunto bastante complexo surge: uma das colegas se levanta e diz que não aguenta mais o perfil dos princesos que ela conhece e que sugerem rachar a conta no encontro. As casadas e as solteiras do grupo concordam de forma uníssona.

Muitas são as questões que estão implícitas alí, a começar pelo fato delas estarem inseridas em um ambiente de trabalho. Isso não quer dizer que a discussão acaba aqui e que elas estão com toda ou com nenhuma razão, mas que as propriedades estruturais dessa matéria estão dispersas seja da construção histórica dos papéis de homem e mulher, seja do modelo social que temos que conviver na nossa realidade cotidiana.

Elas incluíram imediatamente os colegas homens na questão para saber o que eles achavam. Você não precisa ler “O animal social” para saber que a maioria tem sobre a minoria duas forças fundamentais em relação a extração de opinião: a primeira é a influência que se dá pelo volume e quantidade de opiniões que trafegam no mesmo sentido, a segunda se dá por intermédio da coação.

Mas por que falei do elemento histórico? Porque homens e mulheres sempre estiveram separados em duas dogmáticas morais – eu quis escrever patologias – onde ao homem foi imposta determinadas funções e posturas, expressas em rótulos do tipo “o provedor”, e à mulher lhe cabia outras diferentes e diversas funções na sociedade, que não compreendia, inclusive, o trabalho fora do lar.

As colegas unissonantes do escritório não gostam de feministas, mas cultuam sua autonomia e liberdades, muitas delas conquistadas por feministas. No mesmo sentido, homens e mulheres aceitam a moral tradicional imposta aos sexos desde que impingida para cobrar a postura do sexo oposto.

A questão cessaria em relação a casais do mesmo sexo, ou, pela norma, seria a condição para definir por parcelas de masculinidade e feminilidade as respectivas contribuições das expensas? Não venho esgotar o tema, não trazer a paz, nem a espada. No cotidiano que abarca conquistas feministas como a luta pela igualdade salarial (ainda longe da consolidação), cabe questionar onde de fato recaem certas angústias. Eu aprecio a independência que existe para ser exercida.

O argumento de que elas precisam sempre estar impecáveis e cabelo, unha, roupa são sempre exigidas por ele contrastam com frases do tipo: “não me arrumo para homem nenhum e sim para mim mesma, para me sentir bem”.

Escusa do ônus

Ainda cabe se refletir: em uma saída para se divertir, quais são os bônus? Se reduz determinados bônus para justificar a isenção de determinados ônus como o pagamento da conta? “Ele só falou da ex dele, então o mínimo que pode fazer é pagar a conta”, “ela não tinha conversa, então não vou pagar tudo sozinho”. Reflexões como essa me fazem pensar se uma saída por um prazer puro deveria descambar para essa espécie de vingança.

Quem deve pagar a conta pode surgir como um tema de moral enviesada, que reforça estereótipos do homem e da mulher padrão-desejável. O que se quer e se espera do outro é que eles sejam e se comportem como o padrão ideal que vemos nas mídias, que são fictícias. 

O indivíduo, que rompeu com as dogmáticas do passado histórico formado sob pressão das instituições morais, não libertou seus pares. O delirante busca relações perfeitas porque consome imagens de relações perfeitas e essa generalidade é o padrão superficial que se prodigaliza no corpo social e nas relações de consumo.

O que sinto é que a sociedade se desenhou muito para o individualismo e o caráter de punição dos diferentes se assenta muito nessa estética forçosa de diferenciação que se forma no excesso de individualidade e ausência de coletivismo, pois o cuidado com o outro, o senso de responsabilidade, o desejo de produzir bem-estar, poderiam ser a razão manifesta que tem apagado a lógica do ir para fazer bem a alguém, ir para tornar o dia de alguém melhor, ir porque quer cuidar, porque interessa de fato fazer aquela pessoa ter prazer.

O que eu vejo: nunca foi pela conta. O pagamento deveria ser na verdade uma demonstração de cuidado.

Publicado por Zherus

Pesquisador e profissional com formação multidisciplinar na interface entre Ciências Humanas, Gestão Pública e Economia. Sua trajetória acadêmica inicia-se na Licenciatura em História, fundamentando uma análise crítica das estruturas sociais. Consolidou sua atuação na esfera pública com a graduação em Tecnologia em Gestão Pública, seguida de um MBA em Gestão Fiscal e Tributária, que especializou suas competências na área tributária. Posteriormente, complementou sua base analítica com uma Especialização em Economia, adquirindo ferramentas para a compreensão de políticas e contextos econômicos. Como Acadêmico da Academia Caiçara de Letras e Correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni, mantém engajamento com a produção intelectual e cultural. Sua experiência prática como Escriturário Fiscal, somada ao desenvolvimento de projetos em editoração digital e design gráfico, evidencia a versatilidade de seus interesses e habilidades. Dedica especial interesse a temas como empreendedorismo sustentável, formação de lideranças e estudos sobre o movimento trabalhista, vertentes que conectam sua formação humanística às suas aplicações práticas no mundo da gestão. Áreas de interesse: Administração, Empreendedorismo, Setor Fiscal e Tributário, Programas e Aplicativos Informatizados, Desenvolvimento Pessoal, Liderança, Política, Geopolítica, Economia, Literatura e Cultura. Nas horas livres: Artes Gráficas, Editoração Digital, Poesia e Escrita, Viagens e Futebol.

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