Paixões políticas, leituras e paradoxos do trauma

Na véspera de todo momento estressante, nos pressionamos para não sermos os isentos diante de um mundo em vias de poder mudar. Essa é a esperança que trazemos como seres sensíveis e carentes. O homem é um ser sentimental e busca tecer laços e apegos, um ser grupal que procura convívio e busca se apegar em sensos, consensos e objetos que lhe favoreçam a confiança.

Nesse espectro de segurança ainda não descoberto em sua própria fragilidade, ou cujos sensos sobre isso se reduzem na racionalização, associa-se pela semelhança, aquilo que por experiência traumática ou alegre se possa definir como potencialmente bom ou potencialmente ruim.

Se um relacionamento certa vez me fez mal, não preciso necessariamente entender que todos os relacionamentos serão maus, porque as pessoas têm relacionamentos muitas vezes duradouros, mas se na minha tentativa de relacionamento atual eu encontrar características do comportamento daquele que outrora me fez mal, isso pode se tornar uma justificativa para que eu me veja em determinado momento na defensiva.

A chave é esse comportamento de ficar na defensiva, porque preexiste nessa atmosfera a desconfiança e o enviesamento interpretativo. Quer dizer que se percebo que algo no ambiente pode me fazer mal, ele pode estar fazendo agora, se alguém no ambiente pode me enganar, ele pode estar fazendo agora, se eu vivi uma situação traumática no passado, eu posso estar para experienciar ela novamente agora. O trauma desenha falsas associações através do assombro.

O risco não está portanto sozinho, ele está inserido em uma lógica de tendências interpretativas que redesenham a minha configuração mental. Quando evitamos que uma criança passe por uma experiência ruim como o bullying, estamos buscando desviá-la dessa programação mental que pode criar más tendências interpretativas para a sequência da sua vida e prejudicar a qualidade dos seus relacionamentos.

Acontece que estamos fazendo o trabalho de um adulto para uma criança porque ela não pode fazê-lo por si mesma. Em determinado momento, adulta, essa criança que cresceu sob certas proteções encontrará seus próprios desafios, que irão muito além de experiências com bullying ou relacionamentos, mas que entrarão em outras esferas, como na política. Na política, nosso senso de autoproteção e autopreservação vai mais longe, pois é mais potente e transborda às condutas, como posturas, posicionamentos, condutas e discursos.

O desejo de sanar a sociedade está escrito nas entrelinhas de cada discurso que provocou embates bélicos e cada conflito histórico, e não é preciso desacreditar dessas linhas passadas ou aguardar as futuras para se concluir a debilidade dos comportamentos extremistas, pois fora do manifesto de um ou mais deles que se inteligenciou a impropriedade dos gestos brutos para a sanação de problemas complexos das sociedades.

A Paz obtida com a ponta de uma espada não passa de uma simples trégua.

Proudhon

Condenemos pois os gestos brutos e os extremismos porque ciclica e redundantemente foram eles que furtaram a intelectualidade das escolhas e o equilíbrio da razão e dos discursos, que cegaram e desviaram as pessoas das escolhas alegres e da prosperidade, pela impropriedade indolente que têm as mágoas não tratadas, o rancor e o remorso. Essas são aquelas que nos fazem condenar possibilidades e contestar a prudência dos temperados.

Finalizo essa reflexão com minha velha frase:

Os polos ganham força quando o equilíbrio e a moderação perdem espaço simbólico, sendo falsamente vistos como passividade ou complacência.

Publicado por Zherus

Pesquisador e profissional com formação multidisciplinar na interface entre Ciências Humanas, Gestão Pública e Economia. Sua trajetória acadêmica inicia-se na Licenciatura em História, fundamentando uma análise crítica das estruturas sociais. Consolidou sua atuação na esfera pública com a graduação em Tecnologia em Gestão Pública, seguida de um MBA em Gestão Fiscal e Tributária, que especializou suas competências na área tributária. Posteriormente, complementou sua base analítica com uma Especialização em Economia, adquirindo ferramentas para a compreensão de políticas e contextos econômicos. Como Acadêmico da Academia Caiçara de Letras e Correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni, mantém engajamento com a produção intelectual e cultural. Sua experiência prática como Escriturário Fiscal, somada ao desenvolvimento de projetos em editoração digital e design gráfico, evidencia a versatilidade de seus interesses e habilidades. Dedica especial interesse a temas como empreendedorismo sustentável, formação de lideranças e estudos sobre o movimento trabalhista, vertentes que conectam sua formação humanística às suas aplicações práticas no mundo da gestão. Áreas de interesse: Administração, Empreendedorismo, Setor Fiscal e Tributário, Programas e Aplicativos Informatizados, Desenvolvimento Pessoal, Liderança, Política, Geopolítica, Economia, Literatura e Cultura. Nas horas livres: Artes Gráficas, Editoração Digital, Poesia e Escrita, Viagens e Futebol.

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