A capacidade é colocada sempre como um valor soberano, exaltativo, valorativo das condições humanas. Quem tem a capacidade tem o poder e, mesmo que lhe falte atitude ou permissão, ainda assim, existe reconhecida a estima da potencialidade e todas as fantasias que permeiam a força de sua enunciação, acepção e percepção.
Quase sempre o poder é exaltado como dádiva: os fortes podem, eles são capazes. Os heróis podem voar, o milionário pode comprar muitas coisas. Está ali a admiração pela capacidade, não pela qualidade do que se fará com ela, mas pela presença que assenta de seu bemérito.
Se nutrimos estima pela capacidade e pelo poder que a capacidade nos confere, então, não objetamos que a vontade de potência que ora lemos em Nietzsche seja uma busca e um ideal para todo grupo e toda coletividade de pessoas, certo?
A experiência do cotidiano nos mostra que isso não é bem uma verdade absoluta. Embora haja todo esse doce romantizado em torno do poder e da capacidade, o não-poder e a incapacidade se revelam também como grandes objetivos. Se notamos que uma pessoa no trabalho é muito competente, muito producente, sabemos que ela irá receber mais demandas, irá trabalhar mais ou muito mais do que aqueles que aparentam menos potencial.
Então, na ausência de capacidade, na impressão que se transmite de impossibilidade e nas provas que endossam as limitações transparecidas, está uma grande forma de poder. Esse fator acirra ainda mais a disputa que existe entre os inteligentes e os espertos porque os inteligentes aceitam e exploram os desafios de cada problemática para aprenderem e se aperfeiçoarem e os espertos desviam desse cansaço sem que necessariamente deixem de aprender com uma parcela desse capital intelectual que fica no ambiente.
As provas de que se precisa para justificar certas limitações são criativas, são falsas e também são verdadeiras, essas, frequentemente associadas à patologias, mas parte dessas verdadeiras podem ter seus efeitos adversos de potencialidade reduzidos, mitigados no esforço, no interesse, na perseverança, no bater de tecla da insistência, ainda que doída, como normalmente é.
Exemplos dessas provas que dialogam a limitação das capacidades são com frequência:
Os de ordem tácita: “eu sou assim”, “esse é meu jeito”, “eu não consigo, já tentei”, “eu não consigo porque não levo jeito”
Os de ordem de isenção: “isso não é do meu setor”, “isso eu já fiz muito, agora deixa para o estagiário”, “isso eu já sei, deixa quem não sabe para aprender”, “eu não posso porque tenho problema”.
Os de ordem patológica: “eu não posso porque tomo remédio para isso”, “eu não consigo porque tenho ansiedade”, “não posso porque não consigo ter concentração”.
As limitações certas também podem construir bons caminhos sempre que há um repertório de disposições voltados para quaisquer que sejam os objetivos. Quando esses objetivos focam no real e agregam ideias em conjunto, grandes formulações podem surgir.
Na margem dessa disputa entre capacidade e falta de capacidade, inteligência e esperteza, cumprimento e justificativa, o poder será sempre um espectro ora romanceado e ora emergido como elemento de esquiva. O que parece fundamental é que, em meio às tantas necessidades do dia a dia, se respeite sempre que possível as razões e se precavenha às punições como aquelas que recaem e sobrecarregam ora os inteligentes, ora os produtivos e ora também os que de fato são limitados por razões diversas.
Fecho esse texto com a frase reflexiva e inspiradora de Nietzsche:
“A objeção, o desvio, a desconfiança alegre, a vontade de troçar são sinais de saúde: tudo o que é absoluto pertence à patologia”